Victor Wembanyama “dá azar” e perde milhões para conta bancária
Ganhar milhões de dólares logo após completar 20 anos é o sonho de qualquer jovem atleta. Para Victor Wembanyama, é realidade. Ainda assim — e sem que ninguém sinta pena dele —, ele poderia ter faturado muito mais se não tivesse dado o “azar” de não ter nascido na década de 1990.
Em 1994, por exemplo, a primeira escolha do draft, Glenn Robinson, quase fechou o primeiro contrato de 100 milhões de dólares da história do esporte profissional — o equivalente a cerca de US$ 210 milhões hoje — antes mesmo de disputar um único jogo. O hype em torno dele foi tão grande que, três décadas depois, ainda é lembrado.
O surgimento de uma promessa na NBA
Desde o colegial, olheiros da NBA descreviam Glenn Robinson como um talento geracional. Nascido em Gary, Indiana, em 1973, ele cresceu em meio a desafios: pai ausente, mãe adolescente e uma das cidades mais violentas dos EUA. O basquete foi seu caminho de escape.
Eleito melhor jogador do ensino médio em 1991, acumulou títulos e prêmios individuais, mas perdeu seu primeiro ano na Universidade de Purdue por problemas acadêmicos. Recuperou-se no segundo ano com médias de 24,1 pontos e 9,2 rebotes, e explodiu no terceiro, liderando a NCAA com 30,3 pontos por jogo — marca que ninguém superou desde então.
Em 1994, mesmo com uma forte classe (Jason Kidd e Grant Hill estavam entre os selecionados), Robinson foi a escolha número 1 do Milwaukee Bucks. Na época, não havia limite salarial para novatos, e ele entrou nas negociações exigindo um contrato de 13 anos por US$ 100 milhões.

Para efeito de comparação, isso superava o acordo mais alto da liga, os US$ 84 milhões de Larry Johnson com o Charlotte Hornets. O dono dos Bucks, Herb Kohl, reagiu com ironia: “Por esse preço, podemos dar a franquia para ele”.
Robinson manteve a exigência e boicotou treinos e a pré-temporada. Pressionada, a franquia revelou publicamente que ele recusara US$ 60 milhões. Duas semanas depois, às vésperas da estreia, firmaram um contrato de 10 anos e US$ 68 milhões — ainda o maior da história para um novato, equivalente hoje a US$ 141 milhões.
O efeito cascata: mudança de regras
O valor assustou donos de equipes e veteranos, preocupados com a inflação salarial e a redução do espaço no teto para atletas mais experientes. A reação foi imediata: a NBA viveu um locaute entre junho e setembro de 1995, e o novo Acordo Coletivo estabeleceu a escala salarial para novatos.
A partir daí, contratos passaram a ter duração fixa de quatro anos (dois garantidos, dois opcionais), com valores pré-determinados de acordo com a posição no draft e a receita da liga. Negociações ficaram limitadas a variações entre 80% e 120% do valor da tabela.
O primeiro afetado foi Joe Smith, escolha nº 1 de 1995, que recebeu apenas US$ 8,4 milhões por quatro anos — US$ 60 milhões a menos que Robinson. Até hoje, apesar de ajustes, o sistema segue em vigor.
Em quadra, Robinson teve impacto imediato: 21,9 pontos e 6,4 rebotes como novato. Foi All-Star em 2000 e 2001 e manteve média acima de 20 pontos em sete de suas oito temporadas pelos Bucks, atingindo o pico de 23,4 em 1997/98. Coletivamente, porém, o sucesso foi escasso. O auge veio em 2000/01, quando Milwaukee, ao lado de Ray Allen e Sam Cassell, chegou às finais do Leste. Fora isso, a equipe permaneceu no meio da tabela.
Transferido para Hawks e depois 76ers, conquistou um título com o Spurs em 2005, embora com participação limitada. Lesões no joelho o levaram à aposentadoria com médias de 20,7 pontos, 6,1 rebotes e 2,7 assistências, além de cerca de US$ 80 milhões em salários.
Apesar de uma boa carreira, Robinson não alcançou o patamar de superestrela que se esperava. Hoje, é lembrado tanto pelo impacto que causou fora das quadras — mudando para sempre as regras de contratos para novatos — quanto pelo que fez jogando.